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Cascas de mexilhões ou borras de café. Identificados 50 produtos que reduzem pegada ecológica na produção de calçado

Cascas de mexilhões ou borras de café. Identificados 50 produtos que reduzem pegada ecológica na produção de calçado

Foram identificados mais 50 produtos que permitem produzir calçado com menor pegada ecológica: cascas de mexilhões ou borras de café ajudam a uma produção mais sustentável do calçado europeu.

Andrea Neves - RTP Antena 1 /
Fotos: APPICCAPS

A associação dos profissionais de calçado esteve em Bruxelas para dar a conhecer os resultados de um projeto financiado por fundos europeus.

O objetivo foi o de desenvolver sapatos de qualidade, mas produzidos com materiais biodegradáveis e com menos uso de produtos químicos.

Garantir a economia circular também neste sector foi o objetivo deste projeto que foi agora apresentado à Comissão Europeia.

Os profissionais pediram também a Bruxelas que defenda o setor europeu, tendo em conta que muitos dos produtos que chegam da Ásia não cumprem as regras europeias.

Todos os anos são produzidos 24 mil milhões de pares de sapatos em todo o mundo. 88 por cento na Ásia.

A Associação Portuguesa dos Industriais de Calçado, Componentes, Artigos de Peles considera que é possível fazer calçado de qualidade na Europa e a preços competitivos como explica Paulo Gonçalves o diretor executivo da associação.

“Nos últimos três anos, no âmbito do PRR, investimos mais de 100 milhões de euros na indústria portuguesa de calçado, em particular na área da bioeconomia. Investimos 70 milhões de euros. Juntámos à mesma mesa empresas de calçado, componentes de curtumes, universidades e centros tecnológicos e desenvolvemos 50 novos produtos que estamos a apresentar aos mercados internacionais”.

“Estamos a falar de calçado com que faz recurso a matérias-primas naturais, como a cortiça ou madeira, ou a biomateriais, ou calçado biodegradável. Estamos a recuperar muito calçado ou reciclar muito calçado para fazer novos componentes como solas ou calçado integral. Estamos a apostar numa nova geração de calçado em couro. Nós acreditamos que é possível produzir calçado na Europa e Portugal pode ser aqui um farol, porque em alguns aspetos estamos à frente daquilo que são os nossos grandes concorrentes internacionais”.

Maria José Ferreira, Diretora de investigação e sustentabilidade do Centro Tecnológico do Calçado explica que o projeto reuniu 49 empresas e 20 entidades do sistema científico e tecnológico. O objetivo a transição para o sistema baseado em recursos renováveis e diminuir o uso de resíduos fósseis.

“O projeto começou por identificar necessidades e oportunidades emergentes da bioeconomia circular e tem como propósito fazer uma transição a provocar uma transição do nosso cluster para esse novo sistema. Um sistema baseado em recursos renováveis inesgotáveis no nosso planeta e diminuir o uso de recursos fósseis. Com estes recursos renováveis, queremos valorizar subprodutos e resíduos agroindustriais que não têm qualquer utilização na alimentação humana e animal e transformá-los em novos materiais que deem produtos duráveis, sustentáveis e recicláveis. Para promovermos esta transformação, estão a ser investigados e desenvolvidos novos processos, adotadas também novas tecnologias”.

50 novos produtos ou matérias-primas que a indústria de calçado pode usar
O projeto tinha como meta desenvolver 49 produtos com menor pegada ecológica. Mas já se alcançaram 50.

“Mas não nos basta termos os biomateriais e as tecnologias digitais” reforça Maria José Ferreira, “o produto per si tem que ser mais sustentável”.

Mas vamos a exemplos, alguns dos que fizeram parte desta exposição em Bruxelas

“Aqui temos, por exemplo, fibras de laranja, de pera, de maçã também, pele de castanha, caroço de azeitona, cascas de mexilhões, cargas de valorização energética, de arroz. Portanto, há aqui um sem número de materiais que servem para incorporar, por exemplo, naquelas palmilhas que vemos ali, em que a cor é nomeadamente atribuída à utilização desses materiais. Aquelas palmilhas incorporam também resíduos de couro para aumentar a sua capacidade de absorção e absorção de água”.

Mas há mais: “temos aqui também casca de pinheiro triturada, temos folhas de oliveira, temos grãos de café, desperdícios da borra café que são utilizados, por exemplo, para curtir e curtir couros. Os couros que vê ali. Aquela mala, nomeadamente, é curtida com extratos vegetais”.

Mas há mais exemplos dos muitos que o projeto desenvolveu.

“O couro, por si, valoriza peles que são um subproduto da indústria alimentar e aqui estamos a tratá-los não com ingredientes fósseis ou metais, mas com extratos vegetais. Usamos menos produtos químicos. Um dos objetivos foi revisitar todo o processo de produção de curtumes – e foi conseguido – diminuir o consumo de água em diversos processos em até 20%, diminuir o uso de sal, os compostos que vão para a atmosfera e que contribuem para os gases de efeito de estufa” explica a Diretora de investigação e sustentabilidade do Centro Tecnológico do Calçado.

A exposição já estava presente da Representação Portuguesa junto da União Europeia durante as comemorações do 10 de Junho. O Presidente do Conselho Europeu visitou-a e quis conhecer todos os progressos já feitos neste setor.

Prestar contas e pedir medidas em defesa do calçado europeu
Na apresentação estiveram elementos da Comissão Europeia. Bruxelas já aplicou multas a grandes plataformas online por não cumprirem requisitos básicos europeus em relação a produtos vindos de fora da Europa.

A associação dos profissionais do calçado diz que as regras devem ser iguais para todos, também neste setor.

“Nós estamos a fazer os trabalhos de casa. Estudos preliminares indicam nos que 40% desse calçado das grandes plataformas internacionais violam as regras comunitárias. A seu tempo, apresentaremos publicamente os resultados deste estudo que envolveu centros tecnológicos de praticamente todos os países europeus” realça o diretor-executivo da APPICAPS.

“Nós somos a favor do comércio livre, justo e equilibrado, mas aquilo que nós naturalmente queremos é que as regras sejam iguais para todos. Nós estamos a fazer o nosso trabalho. Estamos a reforçar a capacidade produtiva, estamos a qualificar os nossos trabalhadores, estamos a investir numa nova geração de produtos, mas, naturalmente, temos a expectativa que a Europa também defenda os interesses europeus e defender os interesses europeus no setor do calçado é defender 33.000 empresas e mais 300.000 postos de trabalho” garante Paulo Gonçalves.

O diretor-executivo explica que, porque foi financiada pelo PRR, ou seja, com fundos europeus, a APICCAPS considerou essencial vir mostrar onde foi gasto o dinheiro investido no setor.

“Neste caso, o PRR é um dos grandes objetivos que nos traz a Bruxelas: para apresentamos contas públicas do investimento que fizemos no passado recente, no âmbito do PRR. Nós investimos de forma muito significativa. Estamos a falar do maior investimento sempre da história da indústria portuguesa de calçado e vimos precisamente a Bruxelas prestar essas contas públicas, demonstrar os resultados desse processo de investigação, desenvolvimento. A fase seguinte é escalar estes produtos e eles passarem a ser comercializados e apresentados ao mercado”.

Objetivos cumpridos. Há todo um novo mundo no calçado europeu impulsionado por este projeto português que junta saber fazer à ciência e à necessidade de uma economia circular.

Há até um projeto de produção de sapatos feitos com pedaços de outros sapatos. O futuro poderá também passar por depósitos de sapatos usados que as pessoas já não queiram usar, para serem recuperados e para ganharem nova vida, ou pelo menos parte deles.

Até porque todos os anos 1300 toneladas de calçado importado pelo europa vão para o lixo. São números da Confederação europeia da Indústria do Calçado.
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